sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Senhor das cores


'Comprei um balde de tinta
só me falta saber a cor
Comentei com meu senhor :
- A vida é pálida. Quero pintar!

Meu senhor sorriu de lado,
meia boca
dente amarelo, olhos azuis
A cor começou a chegar.
Peguei pincel, puxei o céu, me pus a pintar!

Meu senhor, não fuja não
o céu logo volta pro lugar
é que esse azul tá apagado,
pare com medo, com desespero
Pegue minha mão, vou te levar!

Escolha o tom, a cor pro mar
que tal laranja?Pra alegrar!
Meu senhor, é meu amor
sabe bem como me olhar.
E essas rugas de alegria, coloriam meu lar.

Gritei com força,
em um vermelho intenso:
- Encontrei o tom!
Meu senhor corra aqui.
Meu senhor?

Meu amor?
Em um tom pálido sorriu enfim.
Meia boca, dente amarelo, olhos azuis
A tinta secou,
eu cheguei ao fim.'


Juliana Galante

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Escarros azedos


'Não sinto mais suas palavras
brancas, caladas, e enrugadas.
E seus raios macios e vermelhos
engolem meus olhos
doces e cansados.

Já sinto a agonia, sinestesia.
Me anestesia esse vazio de dores,
e o peito vazio de rancores
sem cores,
não chora mais.

Os gritos, gemidos e escarros,
todos os cigarros
vou regurgitar.
Em ância de viver sem mais vômitos,
sem mais palavras

Sem seus gostos, cheiros e desgostos.
findo assim, sem fim.
Limpando todo esse vômito

todo esse azedume que morou em mim.'

Juliana Galante

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Pó de nós


'E o vento vem trazendo a brisa
E a brisa vem levando a alma
E a alma vai lavando a carne
E a carne volta para o fino pó
Pó deixando o vento só
... Só olhando tu partir
Tu partindo-me ao meio
Meio a meio, quero assim.
E querendo vou levando,
E levando chego ao fim.'

Juliana Galante

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Sem mais delongas, deixa eu te acender,


Abro a porta e você chega sem bater, sem falar...
...dez minutos de silêncio.
E depois, um singelo 'oi' , que pra quem via mais parecia mudo.
Saiu entalado, raspando os canos do estômago. A garganta seca queria dizer mais, mas o coração mole, já sem forças e também cheio de confusas palavras, recitava em silêncio todo seu poema.
Em um estado de ... como é mesmo que se diz?... Sim, claro, estado de loucura insana eu quis voar em seu corpo, sugar todo seu perfume.
E esses olhos teus, pequenos, profundos e enigmaticos. Luz profunda que provoca meu instinto.
Meus cinco sentidos voltados só para você. E um sexto, cheio de flores que me deixou fixada no solo por uma eternidade de segundos e sem mais delongas, um ultimo beijo na chuva.
Coisa de cinema?
Coisa de nós dois!
Não é química, nem física. É poesia!
Seus braços como um íman vinham trémulos ao meu encontro e os meus, pobrezinhos, cheios de esperança grudavam nos teus como goma de mascar. Senti que não podia mais desgrudar, sinto muito princípe de luz.
Príncipe de fogo, és apenas um bobo e lindo, lindo!
Lindo raio da manhã que insiste em queimar meus lábios. E eu tola, toda tonta, me descabelava com seu amor.
Amor, amor, amor, amor... raio da manhã, sonho em fim de tarde, desespero e pavor.
Volta como furacão, mas você insiste em resistir, foge, se esconde e queima.
Princípe de brasa, deixa eu te acender!

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Sonho de sabão


'Eu quero um sonho maior que o mundo,
que não caiba na minha mão.
Que seja simples, eterno
E se aconchegue em meu coração.

... Eu quero um sonho de criança,
inocente, verdadeiro
Vou brincando de viver
e transformo o mundo inteiro.

Não faço planos
não pinto moldura
desenho, rabisco
em caderno de brochura

Vou vivendo assim
sonhando em bola de sabão
correndo, caindo
sem ter os pés no chão.'

Juliana Galante

sábado, 15 de outubro de 2011

Memórias de um canteiro


'Largue meu colo,
desenrole dos meus cabelos
cisco dos meus olhos
salte dos meus seios

razão de minhas memorias
limpe estes seus lábios
me conte outras histórias
a sós, longe dos sábios

a sós nós dois ficamos
e tão logo o terceiro
devolva estes meus ramos
que roubei do teu canteiro

Eu colo nos teus lábios
sob olhos de um terceiro
E choram meus sábios seios
entre os ramos dos teus cabelos

Ficamos sem as histórias
das memórias de um canteiro.'

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Olhos de ressaca


'Estes olhos de ressaca.
te engolem
te devoram
e regurgitam em prazer.

E o que se pode fazer?

Ah, minha bela donzela amarga
minha cachaça,
minha menina,
minha malvada!

Pulo da sacada?

Experimenta o veneno destes olhos
profundo e infame.
Enfatizando o perfume doce
dos cabelos negros, mil laços

Me jogo nos teus braços?

Malditos olhos de ressaca!
ruminando lágrimas no lençol
do mar vermelho.
No vermelho desta cama.

Me ama?

Soa inconstante, não soa?
Olhe estes dois túneis negros.
Tens medo?
Não!

Mergulho então?

Afunde.
Mas volte pra superfície
Oh, divina lágrima,
profunda fumaça

Olhos de ressaca...
deixe-o descansar
no mar. '

Juliana Galante